terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Venezuela: Chavismo, Crise Democrática e Disputa Geopolítica


Por Marcos Soares – Professor de História e liderança comunitária.

A Venezuela tornou-se, nas últimas décadas, um dos principais símbolos das contradições políticas da América Latina contemporânea. O chavismo, inaugurado com a eleição de Hugo Chávez em 1998, nasceu como resposta a um sistema político excludente e a uma democracia liberal incapaz de enfrentar desigualdades históricas. Seu discurso combinava justiça social, soberania nacional e enfrentamento direto à hegemonia dos Estados Unidos, mobilizando amplos setores populares e redesenhando a política externa venezuelana.

Nos primeiros anos, impulsionado pela alta do petróleo, o governo Chávez promoveu políticas sociais que ampliaram o acesso à renda, saúde e educação. Contudo, como observa o analista de Relações Internacionais Leonardo Trevisan, projetos de forte liderança carismática tendem a entrar em crise quando passam a substituir instituições por lealdades políticas. A centralização do poder, o enfraquecimento dos mecanismos de controle e a dependência quase absoluta do petróleo criaram bases frágeis para a continuidade do projeto.

A sucessão de Chávez por Nicolás Maduro aprofundou essas fragilidades. A crise econômica, marcada por hiperinflação, escassez e colapso produtivo, foi acompanhada por um progressivo fechamento do regime. A historiadora Maria Ligia Prado alerta que, na história latino-americana, experiências políticas que nascem com forte legitimidade popular podem resvalar para o autoritarismo quando o dissenso passa a ser tratado como ameaça à soberania nacional. Na Venezuela, crítica e oposição foram progressivamente deslegitimadas em nome da defesa do projeto bolivariano.

As sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia agravaram esse quadro. Embora não expliquem sozinhas a crise venezuelana, tiveram impacto direto sobre a economia e sobre a população, reforçando a narrativa do cerco imperialista. A política externa norte-americana, nesse contexto, resgata uma longa tradição intervencionista na América Latina, na qual a defesa da democracia frequentemente se confunde com interesses estratégicos, especialmente sobre recursos energéticos.

Paralelamente, a aproximação da Venezuela com China e Rússia inseriu o país em uma disputa geopolítica mais ampla. Esses atores ofereceram apoio financeiro, diplomático e militar, não por afinidade ideológica, mas por interesses estratégicos globais. Como destaca Trevisan, alianças assimétricas raramente fortalecem a soberania dos países periféricos; ao contrário, tendem a transformá-los em peças de um tabuleiro internacional controlado por grandes potências.




O processo venezuelano dialoga com as reflexões apresentadas em “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. A Venezuela não vivenciou um golpe clássico, mas um processo gradual de erosão institucional, no qual eleições persistem, porém esvaziadas de competição real, e o Estado de Direito é progressivamente corroído por dentro.

O Brasil, por sua vez, manteve uma relação ambígua com o chavismo. Oscilou entre o diálogo diplomático, a defesa da soberania e a dificuldade em reconhecer os limites democráticos do regime. Essa postura reflete tanto a tradição brasileira de não intervenção quanto os dilemas históricos da esquerda latino-americana ao lidar com experiências que, em nome do anti-imperialismo, relativizaram a democracia.

Talvez Gabriel García Márquez ajude a compreender esse percurso ao retratar a América Latina como um espaço onde o épico e o trágico caminham juntos. O chavismo construiu uma narrativa de redenção histórica, mas acabou aprisionado em seus próprios mitos, incapaz de responder às exigências concretas da democracia e da economia contemporâneas.

A Venezuela deixa uma lição dura, porém necessária: não há projeto soberano sustentável sem instituições democráticas sólidas, pluralismo político e respeito às liberdades. Para a América Latina, o desafio segue sendo construir alternativas que enfrentem desigualdades sem abrir mão da democracia condição indispensável para qualquer futuro possível.

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