quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ODONTOLOGIA PREVENTIVA PODE AJUDAR A MUDAR REALIDADE DA PERDA DE DENTES NO BRASIL



Dra. Valmari Ceris defende mudança de cultura no cuidado com a saúde bucal, com acompanhamento periódico antes que dor e doenças levem a tratamentos complexos e até à perda dos dentes

Por muito tempo, o Brasil carregou a incômoda imagem de “país dos banguelas”. A expressão pode soar exagerada diante dos avanços registrados nas últimas décadas, mas a perda dentária ainda é uma realidade para milhões de brasileiros e revela um problema que vai muito além da estética: a dificuldade histórica de transformar a prevenção em hábito.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. A Pesquisa Nacional de Saúde Bucal, o SB Brasil 2023, do Ministério da Saúde, mostra que 36,48% dos brasileiros entre 65 e 74 anos haviam perdido todos os dentes. Entre os idosos pesquisados, a média chegou a 19,86 dentes perdidos. O levantamento também identificou impactos na alimentação, na fala, no sorriso e nas atividades cotidianas.

Em 2010, o edentulismo — nome técnico dado à perda total dos dentes — atingia cerca de 53,7% dos idosos avaliados. Em 2023, esse percentual caiu para pouco mais de 36%. Ainda assim, o índice brasileiro permanece acima da estimativa global da Organização Mundial da Saúde para pessoas com 60 anos ou mais, situada em aproximadamente 23%.

É nesse cenário que a odontóloga maranhense Dra. Valmari Ceris chama atenção para uma mudança aparentemente simples, mas decisiva: é preciso procurar o dentista antes de sentir dor.

A odontologia preventiva parte justamente da lógica de antecipar problemas. Consultas periódicas permitem identificar alterações em estágios iniciais, acompanhar a saúde das gengivas e dos dentes, controlar fatores de risco e evitar que condições tratáveis evoluam para quadros mais graves.

A Dra. Valmari Ceris lembra que “cuidar dos dentes deveria fazer parte do planejamento de saúde ao longo de toda a vida. A mudança passa por abandonar uma cultura ainda presente entre muitos brasileiros, na qual a consulta odontológica é adiada até surgir dor, desconforto ou algum comprometimento visível. Quando a dor aparece, muitas vezes o problema já avançou e o quadro se complicou”.

Perder dentes não é consequência natural da idade

A Organização Mundial da Saúde afirma que as principais doenças bucais são, em grande medida, preveníveis. A perda dentária costuma representar o estágio final de uma trajetória marcada principalmente por cáries avançadas e doenças periodontais graves, embora também possa decorrer de traumas e outras condições.

Entre os fatores de risco estão higiene bucal inadequada, consumo frequente de açúcares, exposição insuficiente ao flúor, tabagismo e dificuldade de acesso a acompanhamento odontológico. Há ainda um forte componente socioeconômico: Segundo a OMS, doenças bucais atingem de maneira desproporcional populações socialmente mais vulneráveis.

No Brasil, esse histórico deixou marcas especialmente entre as gerações mais velhas. O próprio Ministério da Saúde observa que muitos idosos de hoje passaram a infância e a adolescência antes da ampliação de políticas preventivas, do uso disseminado de dentifrícios fluoretados e de outras estratégias de promoção da saúde bucal. Por isso, associar velhice à perda inevitável dos dentes é um erro.

Da odontologia da dor para a odontologia da prevenção

Na prática clínica, Valmari Ceris trabalha com uma visão que busca inverter essa lógica: o melhor tratamento é aquele que começa antes de o problema se tornar grave. Isso significa estabelecer uma rotina individualizada de acompanhamento odontológico, com avaliações periódicas definidas conforme as condições e os fatores de risco de cada paciente. O objetivo é preservar dentes naturais, gengivas e estruturas de sustentação pelo maior tempo possível e intervir precocemente quando houver necessidade.

A prevenção também envolve hábitos cotidianos: higiene bucal adequada com creme dental fluoretado, limpeza entre os dentes, alimentação equilibrada com menor consumo de açúcares, abandono do tabagismo e atenção a qualquer alteração persistente na boca. Mais do que uma questão odontológica, portanto, trata-se de uma mudança cultural.

Durante décadas, parte da população brasileira aprendeu a conviver com a ideia de que extrair dentes seria uma consequência quase inevitável da idade ou a solução definitiva para problemas recorrentes. A odontologia contemporânea trabalha na direção oposta: preservar estruturas naturais sempre que clinicamente possível e fazer da prevenção o primeiro tratamento.

Para Valmari Ceris, enfrentar essa realidade exige colocar a saúde bucal no mesmo patamar de outros cuidados preventivos. “Assim como exames médicos são realizados para identificar precocemente doenças silenciosas, o acompanhamento odontológico não deveria depender do surgimento da dor. Precisamos mudar de hábito, e não esperar adoecer para começar a cuidar da saúde” destaca.

Em um país que ainda convive com as consequências de décadas de perda dentária, transformar a visita ao dentista em um hábito preventivo pode significar muito mais do que preservar um sorriso. Significa preservar mastigação, fala, autoestima, alimentação e qualidade de vida — inclusive na velhice.

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